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O que está por trás da crise de alimentos?

por Paul Krugmanúltima modificação 2008-06-10 03:13

Paul Krugman analisa as transformações na estrutura de preços das matérias primas na economia contemporânea.

O que está por trás da crise de alimentos?

Paul Krugman

Ultimamente tem-se ouvido muita coisa sobre a crise financeira no mundo. Mas há uma outra crise mundial em andamento – que está prejudicando muito mais gente. Estou falando da crise dos alimentos. No decorrer dos últimos anos, o preço do trigo, milho, arroz e outros alimentos básicos dobraram ou triplicaram – grande parte do aumento ocorreu nos últimos meses.

O alto preço dos alimentos desanima até os americanos relativamente bem de vida, mas está verdadeiramente devastando os países pobres, onde os alimentos freqüentemente respondem por mais da metade do dispêndio familiar. 

Já tem havido tumultos por causa de comida pelo mundo. Os países produtores de alimentos, da Ucrânia à Argentina, têm restringido as exportações numa tentativa de proteger os consumidores domésticos, o que tem resultado em protestos enraivecidos dos agricultores, tornando as coisas ainda piores para países que precisam importar alimentos.

Como isso aconteceu? A resposta é uma conjunção de tendências de longo prazo com má sorte e política ruim. Vamos começar com aquilo que não é culpa de ninguém.

Primeiro, tem a marcha dos chineses consumidores de carne, isto é, o crescente número de pessoas de economias emergentes que estão, pela primeira vez, suficientemente abastadas para se alimentar como os ocidentais. Já que é necessário cerca de 700 calorias em ração animal para produção de uma peça de carne de 100 calorias, esta mudança na dieta aumenta a demanda geral por cereais.

Segundo, há o preço do petróleo. A agricultura moderna é uma alta consumidora de energia: é preciso um monte de BTUs para produzir fertilizantes, fazer tratores funcionarem e transportar produtos agrícolas para os consumidores. Com o petróleo acima de US$ 100 o barril, os custos de energia se transformaram num fator importante na composição dos custos agrícolas.

A propósito, os altos preços do petróleo também têm muito a ver com o crescimento da China e de outras economias emergentes. Direta ou indiretamente, essas potências econômicas em ascensão estão competindo com o resto de nós por recursos escassos, entre eles o petróleo e as terras cultiváveis, o que eleva os preços de matérias-primas de qualquer tipo.

 

Terceiro, o clima não tem sido favorável em áreas chaves de plantio. Particularmente a Austrália, normalmente a segundo maior exportador de trigo do mundo, vem sofrendo com uma seca épica.

Certo, eu disse que fatores acima que estão por trás da crise de alimentos não são culpa de ninguém, mas isso não é totalmente verdadeiro. A ascensão da China e de outras economias emergentes é a força propulsora que empurra para cima os preços do petróleo, mas a invasão do Iraque – cujos proponentes prometeram que resultaria na baixa no preço do petróleo – também serviu para reduzir os suprimentos de petróleo abaixo do que, do contrário, aconteceria.

As más condições climáticas, especialmente a seca australiana, provavelmente estão relacionadas com as alterações no clima. Portanto, políticos e governos que se antepuseram no caminho das ações contra os gases de efeito estufa carregam alguma responsabilidade pela escassez de alimentos.

Mas onde os efeitos das más políticas são mais evidentes é na ascensão do demônio etanol e de outros bicombustíveis. A substituição subsidiada das safras de alimentos pela produção de combustíveis devia promover a independência de energia e ajudar a limitar o aquecimento global. No entanto, essa promessa, como disse com toda a franqueza a revista Time, foi uma "fraude".

Isso é particularmente verdade no caso do etanol extraído do milho, pois mesmo na mais otimista das estimativas, a produção de um galão (3,78 litros) de etanol do milho usa a maior parte da energia contida pelo galão. Mas acontece que mesmo políticas de biocombustível que parecem "boas", como o uso pelo Brasil do etanol proveniente da cana-de-açúcar, aceleram o ritmo das mudanças climáticas, promovendo o desflorestamento.

Nesse ínterim, a terra para plantar a matéria prima para a produção de biocombustíveis não é uma terra disponível para plantar alimentos, assim os subsídios para os biocombustíveis são um fato importante na crise da falta de alimentos. Podemos colocar as coisas da seguinte forma: as pessoas estão passando fome na África para que os políticos americanos possam arrebanhar votos nos Estados agrícolas.

O que deve ser feito? A necessidade mais imediata é prestar mais ajuda às pessoas em dificuldades – o Programa Mundial de Alimentos (World Food Program) da ONU devia emitir um apelo desesperado por mais recursos. Também precisamos retroceder na questão dos biocombustíveis, porque mostrou ser um terrível engano. No entanto, não sabe o quanto pode ser feito. Alimentos baratos, como petróleo barato, talvez sejam coisas do passado.

O Estado de S.Paulo, 8 de abril de 2008.

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