Para além do desastre anunciado
Entrevista com Flavia D’Angeli, candidata da Sinistra Crítica (Esquerda Crítica) à Presidência do Conselho da Itália (primeira-ministra) sobre a vitória da direita nas eleições italianas.
Como analisar a vitória de Berlusconi?
Flavia D’Angeli - Desde o começo do governo Prodi, nós criticamos sua política, tanto no plano social quanto no internacional, explicando que, de tanto correr atrás da direita, a esquerda governamental só poderia favorecê-la. Infelizmente, o resultado da eleição vai além da nossa previsão, com uma ampla vitória de Berlusconi. O novo Partido Democrático (formado por antigos militantes do PDS [ex-PCI] e da Democracia-Cristã), defensor encarniçado da bipolarização da vida política italiana, não ganhou afinal nenhum voto da direita. Ele só ganhou votos da coalizão Arco Íris, que tentou se apresentar como a verdadeira esquerda. Por outro lado, a direita se reforçou muito, especialmente com um progresso inquietante da Liga do Norte, que teve 8,5% dos votos. Em parte, um voto operário e popular…
E o resultado da Refundação Comunista?
Flavia D’Angeli – A coalizão Arco-Íris (que reunia o Partido da Refundação Comunista, o Partido dos Comunistas Italianos, o Partido Verde e um setor de esquerda do antigo PDS) teve pouco mais de 3%. É um verdadeiro tsunami para a esquerda e, pela primeira vez, a esquerda radical não terá nenhum eleito no Parlamento nacional. É o fim do período aberto em 1991, com a criação da Refundação Comunista como tentativa de saída pela esquerda da crise do stalinismo. Mas dois anos de co-governo com Prodi levaram a este desastre e a este desperdício. O PRC que, é certo, não tinha grande implantação social, mas que sempre se beneficiava de um voto de opinião, perdeu toda credibilidade por ter aplicado uma verdadeira política de traição ao mundo do trabalho. Além disso, ele apresentou o ex-presidente da Câmara, Fausto Bertinotti, como candidato a Presidente do Conselho, mas uma mesma pessoa não pode desempenhar ao mesmo tempo todos os papéis numa comédia. Ele declarou, há poucos meses, que “nossos soldados no Líbano são a vitrine do país”, e que era necessário governar com o administrador da FIAT (apresentado como representante da “boa burguesia”), para depois, durante a campanha, invocar a luta de classes e o internacionalismo. As pessoas perderam a paciência. Daqui em diante, é a crise total para Refundação. A federação Arco-Íris vai explodir; velhos stalinistas [do Partido dos Comunistas Italianos], depois de engolir tudo, vão agitar novamente as bandeiras vermelhas e a foice e o martelo. Mas é risível, e será um fracasso. Os mortos não podem salvar os vivos. Esta coalizão será incapaz de fazer política sem aparelho, sem dinheiro e sem parlamentares. Quanto a Bertinotti, ele acaba de anunciar sua saída. O melhor que pode fazer é abandonar a política. Seu único êxito terá sido aquilo que Ochetto, o último secretário-geral do PCI, não tinha conseguido em 1991: destruir a esquerda italiana.
E quanto aos resultados e perspectivas da Esquerda Crítica?
Flavia D’Angeli - Nesta situação de fracasso generalizada na esquerda, nós nos saímos bastante bem, para uma formação política que só tem três meses de existência e que teve um orçamento de campanha de 20 mil euros. Nós tivemos 0,5%, ou perto de 200.000 votos. É interessante que, onde somos mais ativos, tenhamos tido mais de 1%, especialmente em Roma, Turim ou Milão, e 2,7% em Val de Suza, perto de Turim, onde se desenvolvem lutas importantes em defesa do meio-ambiente.
Face a uma esquerda em ruínas, apresentando-nos em todos lugares e dando a conhecer nossa existência, encontramos um eco muito superior à nossa votação, especialmente graças à campanha na TV. Temos condições, a partir de agora, de nos empenharmos na reconstrução de uma verdadeira esquerda, que não renuncia às suas posições. É uma tarefa enorme, em um contexto muito difícil, mas conseguimos salvar um coletivo amplo de militantes que não estão dispostos a se resignar. A campanha nos permitiu estabelecer centenas de novos contatos, e dobrar o número de cidades onde estamos presentes. Sem falar de todos os que se reconheceram em nossas propostas, mas deram um voto “útil”. O mundo de trabalho vai sofrer. Resistir e reconstruir, é a nossa perspectiva.
Publicado no Rouge N° 2248, 17/04/2008. Declarações recolhidas por Alain Krivine.